sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Um banco inteiro

Era uma noite de sexta chuvosa, quente, abafada. O carro estacionou em frente a porta sem aviso prévio. Um misto de emoções, duvidas, certezas e medos. Eu, você e todos nos que temos as mesmas ideias. Um banho pra sair, um vestido, meias e um batom vermelho pra sorrir. Olhou o carro estacionado na frente da casa, ele combinava com as florzinha pequenas azuis claras do jardim. Foi caminhado lentamente até o carro, a noite estava linda e a rua vazia. A porta foi aberta lentamente, o cheiro era o mesmo de todos os anos. Os olhos pequenos e esverdeados curiosos a fitavam sem piscar.


Ela havia mudado e ele sentia, ele era o mesmo estrangeiro de sempre. Sua mão na barra do vestido brincava com a renda da meia, sem palavras uma vida foi contada apenas em olhares. Ela sorriu e ele entendeu. A partida foi dada, o cabelo e a barba continuavam os mesmos, o cabelo dela estava colorido. 

As mão se entrelaçaram contando os novos planos. A música tocava suave entre uma conversa cheia de histórias e saudades. 

A mão segurando a mão dela e brincando com a renda. Aquele olhar estrangeiro de um morador nato do corpo dela, era tão natural. O banco inteiro pelo qual ela se apaixonou por ficar mais perto da nuca dele. 

Pele, mãos, cabelos, gosto, cheiro, fusão. Estranhos, abraços, afeto. Beija. Me entenda, se entenda, sem vergonha, Loucura, paixão, razão. Intenso, mau-humor, piada. Libertino, te odeio, em brasa, me afaga. Meio avesso, cansaço, charme, carícia. Céu, paraíso, inferno, beleza. As mãos estavam em todos os lugares.  E se encaixavam direitinho no banco branco que contrastava com o cabelo dela. Suspiros. 

Um eterno olhar de quem conhece a vida e as dores do outro.
Ele era o mesmo estrangeiro, ela já não era mais a mesma que carregava uma escola de balet no olhar. 

No carro tocava Portishead.  E o vazio da existência dela dentro dele começava a pesar. Ela já não era mais dele.